Empresas de shopping centers revisam planos de abertura de empreendimentos e adiam parte das inaugurações previstas para este ano. A Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce) fez um novo cálculo, diminuindo o número de inaugurações de 47 para 41. Parte dos projetos teve a data transferida para 2014. Segundo cálculos do Valor, com base nos dados da associação, 30 shoppings que pretendem abrir as portas, ou já abriram, em 2013 têm atrasos que atingem até sete meses.

Há empreendimentos sendo abertos com 60% da capacidade ocupada – de cada dez lojas, quatro estão vazias -, quando a taxa média de uma abertura de sucesso está acima de 85%. Segundo a Abrasce, o índice de vacância do setor no país, que chegou a 6% há cinco anos, caiu para 1,47% no fim de 2012, mas voltou a subir e dobrou para 3% em maio. “Nós não estamos com problemas, o setor cresce muito há anos. O que existem são ajustes em decorrência desse crescimento. Não estamos numa redoma de vidro, não moramos na ilha da fantasia e também fazemos acertos ao longo do percurso”, disse Luiz Fernando Veiga, presidente da Abrasce.

Desaceleração da economia, encolhimento da demanda e consequente queda na velocidade de expansão do varejo formam o cenário. O Valor apurou que há um menor número de lojas satélites (de médio porte) dispostas a fazer novos investimentos em shoppings. Esse tipo de loja tem capital de giro limitado e se arrisca menos em períodos de instabilidade. E como a construção de shoppings de grande porte ganhou força nos últimos anos, acabam faltando lojistas para ocupar áreas que chegam a atingir 90 mil metros quadrados – quase o mesmo tamanho do Center Norte, em São Paulo.

A questão traz à tona problemas de planejamento e de gestão. Interessadas em ocupar os terrenos com megaprojetos, que superam 40 mil metros quadrados, as companhias passaram a construir nos últimos anos shoppings gigantescos em cidades em que a concorrência já é acirrada. Municípios como Fortaleza (com o quarto shopping a ser inaugurado em 2014), Sorocaba (SP), Londrina (PR) e Ribeirão Preto (SP) são praças já consolidadas. Treze empreendimentos previstos para abertura entre 2013 e 2014 têm mais de 40 mil metros quadrados (um entre cada cinco).

“Todo mundo está tendo que trabalhar mais para conseguir comercializar os pontos vazios”, diz Cláudio Sallum, sócio-diretor da Lumine, empresa dona de shoppings e uma das mais tradicionais gestoras do setor. Ele tem notado dificuldades de contratação de mão-de-obra na construção e demora maior na obtenção de algumas licenças para funcionamento. “Tudo isso serve como um sinal de que chegou o momento de o setor repensar o negócio. Empreendedores e lojistas precisam tem um planejamento mais adequado sobre onde investir e quanto investir”, diz Sergio Molina, Sócio diretor da agência de publicidade DMV, focada no setor.

As regiões Norte e Nordeste tendem a ser mais afetadas por essas revisões de planos. “Isso ocorre porque, apesar das oportunidades nesses locais, o mercado de consumo lá é menor. Leva-se mais tempo para pagar esse investimento nessas regiões”, diz Antonio Coriolano, da Retail Consulting. Segundo apurou o Valor, o Shopping Pátio Marabá, em Marabá (PA), das mais de 160 lojas previstas para ocupar o local, há pouco mais de 100 em operação, uma vacância de quase 40%. A empresa informa que está negociando novas lojas e que a taxa de ocupação deve subir a 98%.

De 50% a 55% dos espaços em shoppings são âncoras (lojas de grande porte) e o restante, franquias e lojas satélites. “É preciso trazer nova onda de investimento em outras franquias no país para trazer opções ao mercado”, diz Dante Cobucci, sócio da Vértico, empresa de shoppings cujo sócio principal é a WTorre.

O Valor comparou o levantamento atual de aberturas, realizado em julho, com o cálculo anterior, publicado em janeiro pela Abrasce. Há nove shoppings que deveriam estar em operação em 2013 e tiveram a data alterada para 2014. Em 2012, o volume de aberturas previsto inicialmente foi atingido. Vértico, 5R Shopping Centers, Savoy e BR Malls estão entre as empresas que deixaram projetos para 2014 (ver ao lado).

Um terço desse grupo de 30 shoppings está com adiamento que varia de cinco a sete meses. Alguns contratos determinam que adiamentos superiores a 180 dias dão o direito ao lojista de acionar o empreendedor na Justiça.

Por Adriana Mattos | De São Paulo